Em Aracaju, a especulação imobiliária avança sobre áreas de coleta da mangaba, ameaçando o sustento e a tradição de centenas de mulheres. Dados da Embrapa e do IBGE revelam a dimensão do desafio e a resistência organizada das catadoras.
A capital sergipana, Aracaju, testemunha um conflito silencioso entre o avanço da construção civil e a tradição centenária da coleta da mangaba. Mulheres que há gerações dependem do fruto nativo da restinga para complementar a renda familiar enfrentam a pressão da especulação imobiliária, que transforma áreas de coleta em loteamentos e condomínios.
As catadoras de mangaba resistem à especulação imobiliária em Aracaju organizando-se em associações, mapeando áreas de coleta e exigindo a criação de unidades de conservação. Dados da Embrapa indicam que a atividade gera renda para centenas de famílias, enquanto o IBGE registra a redução de áreas verdes na região metropolitana.
A tradição da mangaba em Sergipe
A coleta da mangaba (Hancornia speciosa) é uma atividade extrativista que remonta aos povos indígenas e foi incorporada por comunidades tradicionais no Nordeste. Em Sergipe, as catadoras organizam-se em associações como a Associação das Catadoras de Mangaba de Aracaju (Ascam), fundada em 2005, que reúne cerca de 40 mulheres.
Segundo a Embrapa, o estado de Sergipe é um dos maiores produtores de mangaba do Brasil, com produção anual estimada em cerca de 400 toneladas. O fruto é vendido in natura ou processado em polpas, doces e sorvetes, gerando renda para aproximadamente 2 mil famílias no estado.
Especulação imobiliária e perda de áreas de coleta
O crescimento urbano de Aracaju avança sobre a Zona de Expansão, região de restinga onde a mangabeira ocorre naturalmente. Dados do IBGE indicam que a área urbanizada de Aracaju cresceu 15% entre 2010 e 2020, reduzindo o habitat disponível para a espécie.
A pressão imobiliária se intensifica com a valorização de terrenos próximos à praia. Em 2023, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Aracaju registrou 12 notificações por supressão ilegal de vegetação nativa em áreas de ocorrência da mangabeira. As catadoras relatam que áreas históricas de coleta, como a região do Mosqueiro e da praia do Refúgio, foram loteadas nos últimos anos.
Organização e resistência das catadoras
Diante da pressão, as catadoras se organizam em movimentos sociais e associações. A Ascam, em parceria com a Embrapa Tabuleiros Costeiros, desenvolveu um mapeamento participativo das áreas de coleta, identificando 15 pontos críticos na região metropolitana de Aracaju.
O mapeamento serve como ferramenta de negociação com o poder público. As catadoras reivindicam a criação de unidades de conservação municipais que protejam as áreas de mangabeira. Em 2024, a Câmara Municipal de Aracaju aprovou a Lei Municipal nº 5.234/2024, que institui o Programa de Apoio às Catadoras de Mangaba, mas a implementação ainda é lenta.
Outra frente de resistência é a certificação de produtos. A mangaba coletada por associadas da Ascam recebeu o selo de Indicação Geográfica (IG) do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em 2018, valorizando o produto e fortalecendo a identidade cultural.
Dados socioeconômicos e ambientais
A atividade extrativista da mangaba tem impacto direto na renda de famílias de baixa renda. Segundo a Embrapa, cada catadora pode colher até 30 quilos de mangaba por dia durante a safra (outubro a março), com renda média diária de R$ 60 a R$ 100.
O fruto também contribui para a conservação ambiental. A mangabeira é uma espécie pioneira que ajuda a fixar dunas e proteger a restinga, ecossistema ameaçado. Dados do SOS Mata Atlântica indicam que a restinga em Sergipe perdeu 8% de sua cobertura entre 2000 e 2020.
Políticas públicas e desafios
A principal política pública voltada às catadoras é o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), do governo federal, que compra a produção para distribuição a escolas e hospitais. Em 2023, o PAA adquiriu 12 toneladas de mangaba de associações sergipanas.
No entanto, o acesso ao programa é burocrático. Muitas catadoras não possuem Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) ou Documento de Aptidão ao Pronaf (DAP), requisitos para participar. A Embrapa oferece cursos de capacitação, mas a adesão ainda é baixa.
A especulação imobiliária segue como ameaça central. A Prefeitura de Aracaju estuda a criação de uma Área de Preservação Permanente (APP) urbana na Zona de Expansão, mas o projeto tramita desde 2022 sem conclusão Zona de Expansão de Aracaju.
O papel da ciência e do monitoramento
Pesquisadores da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e da Embrapa monitoram a população de mangabeiras na região metropolitana. Um estudo de 2024 publicado na Revista Árvore estimou que restam cerca de 3.500 indivíduos adultos em áreas urbanas de Aracaju, número 40% menor que o registrado em 2010.
O monitoramento mostra um quadro mais delicado: a fragmentação do habitat dificulta a polinização e reduz a produção de frutos. Cada espécie sustenta o equilíbrio do bioma, e a perda de mangabeiras afeta também a fauna local, como aves e pequenos mamíferos que se alimentam do fruto.
As catadoras colaboram com os pesquisadores, fornecendo dados sobre áreas de coleta e épocas de frutificação. Essa parceria fortalece a luta pela preservação, pois une conhecimento tradicional e científico.
Perspectivas e ações possíveis
A resistência das catadoras de mangaba em Aracaju já produziu resultados concretos: a criação da Ascam, o selo IG e a lei municipal de apoio. No entanto, a implementação efetiva das políticas depende de pressão social e de recursos orçamentários.
Para o leitor interessado em apoiar a causa, algumas ações são possíveis: comprar mangaba diretamente das associações, cobrar do poder público a criação de unidades de conservação e divulgar a história das catadoras. Cada gesto contribui para que a tradição não se perca.
Perguntas Frequentes
O que são catadoras de mangaba?
São mulheres que coletam o fruto da mangabeira em áreas de restinga, atividade tradicional no Nordeste, especialmente em Sergipe.
Por que a especulação imobiliária ameaça as catadoras?
O avanço da construção civil sobre a Zona de Expansão de Aracaju reduz as áreas de coleta, diminuindo a oferta do fruto e comprometendo a renda das famílias.
Como as catadoras se organizam?
Por meio de associações como a Ascam, que promove mapeamento de áreas, certificação de produtos e negociação com o poder público.
Quais políticas públicas existem para apoiar as catadoras?
O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a Lei Municipal nº 5.234/2024, que institui apoio às catadoras, mas a implementação enfrenta desafios.
Onde comprar mangaba em Aracaju?
Diretamente com a Ascam, em feiras orgânicas ou em pontos de venda indicados pela associação durante a safra (outubro a março).
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